Bom dia,boa tarde,boa noite!
Como estamos nessa quarentena? É muito zika desse desgoverno, mas podepá que tá pirigando cair.
Então, hoje vou fazer uma resenha crítica do famoso, ou nem tanto, livro "Pode o Subalterno falar?" da professora Gayatri Spivak.
O livro é um das referências dos estudos pós-coloniais e foi publicado em 1985 no período Wedge com o subtítulo "Especulação sobre o suicídio das viúvas". É um texto bem sui generis porque mescla um marxismo heterodoxo com teorias culturais.
A princípio gostaria de compartilhar minhas impressões sobre a obra. Trata-se de um livro de grande rigor teórico e epistemológico, que estabelece a ruptura com a tese do "Outro" enquanto objeto de conhecimento. A solidez argumentativa de Spivak te mantém refém ao texto, assim com sua reflexão sobre os dados empíricos indianos, em particular a autoimolação das viúvas.
Muitos cientistas sociais acusam a autora de fatalismo. Concordo em partes com essa acusação, pois há alguns apontamentos de saídas para se "produzir" o sujeito subalterno. Apontamentos tênues, complexos, às vezes evasivos, mas há. Enquanto intelectuais temos que assumir que não é um trabalho fácil.
O papel do intelectual, cujo o assunto abordarei mais a frente, é visto como um campo imbrincado numa tensa relação entre colonialidade e agenciamento. Aqui, para verem como não sou sectário, me aproximo da concepção de Gramsci de "Intelectual orgânico". Embora não esteja alinhado a essa concepção, gosto de ampliá-la e tensioná-la. O papel do intelectual, aí incluindo nós cientistas sociais, não é tirar linha política descolado de um contexto orgânico e/ou em seu "gabinente", mas compor, atuar e estar junto, pensando a relação entre teoria e prática. Mas,entretanto, contudo aqui entramos em outro debate, peço licença pela pequena digressão.
Retomando.
Spivak vai destinar este livro aos intelectuais pós-coloniais, principalmente aos pós-estruturalistas franceses e pensar o lugar das mulheres no regime colonialista e patriarcal (aqui uso um termo não utilizado pela autora, mas não consigo elaborar um melhor agora).
Spivak vai destinar este livro aos intelectuais pós-coloniais, principalmente aos pós-estruturalistas franceses e pensar o lugar das mulheres no regime colonialista e patriarcal (aqui uso um termo não utilizado pela autora, mas não consigo elaborar um melhor agora).
No que diz respeito ao primeiro grupo, a teórica vai se debruçar na obra de Foucault e Deleuze "Os intelectuais e o poder" de 1972 para fazer uma crítica que abrange os estudos pós-coloniais em geral.
Spivak diz que a defesa do subalterno pelos intelectuais amiúde tem como plano de fundo a cumplicidade em relação aos interesses do Ocidente - o que ela chama de Ocidente como sujeito.
Destrinchando esse texto, os pós-estruturalistas franceses veem uma relação continuísta entre poder/desejo/interesse e afirmam que o papel do intelectual é "revelar" e conhecer o Outro. Eles trazem a figura de um Maoísta e da luta dos trabalhadores - como o Outro - e ambos são caracterizados como monolíticos, na qual a luta estaria vinculada ao desejo.
Nessas formulações eles desconsideram o papel da ideologia e a divisão geopolítica, posto que interesse e desejo seriam indiferenciados, interesse se realiza no desejo e desejo se realiza no interesse. A experiência concreta do Outro é a realidade, então caberia ao intelectual pós-colonial "revelá-la", solidificando essa divisão internacional do trabalho.
Marx no 18 Do Brumário detalhou que interesse e desejo são distintos mas coabitam o mesmo espaço. Exemplo, interesse de classe seria coletivo, impessoal, sistemático ao passo que o desejo não o é.
Isso toca diretamente a não compreensão das duas dimensões do termo representação por parte dos autores franceses, as quais são: a) dimensão política de falar por, espécie de delegação, procuração b) dimensão artística ou filosófica de re-apresentação, encenar, espécie de retrato, imagem.
Foucault e Deleuze recusam a estrutura de signo e significante do termo representar, impedindo o aparecimento de teoria da ideologia. Os intelectuais seriam transparentes, eles apenas deixariam a fala, ação e conhecimento dos subalternos se tornar visível. O problema dessa construção para Spivak é que ela é essencialista e utópica.
O processo de falar é dialógico, pressupõem um falante e um ouvinte. O subalterno não pode falar, e se por acaso vier a falar ele não pode ser ouvido. Esse processo dialógico não se concretiza para o subalterno. A fala do subalterno sempre é mediada por alguém que a reivindica por ele.
Adentrando especificamente no caso da mulher indiana a situação se agrava, pois há o peso do colonialismo e do patriarcado (lembra a observação que fiz). A mulher indiana é duplamente obliterada pela codificação britânia da lei hindu e sua violência epistêmica.
Olhemos para as insurgências coloniais e o lugar da mulher nesse contexto colonial. O sati, isto é, a autoimolação da mulher indiana na pira funerária do marido, foi proibido pela lei Britânica em 1829 através do enrijecimento escrito e atropelamento colonial da lei hindu.
Aqui o ponto não é avaliar se é moralmente aceita a prática ou não, seguramente não o é. O ponto é entender ordens institucionais em jogo para as explicações do agenciamento ou não das mulheres indianas. Em traços gerais havia duas explicações: da coragem das mulheres que se matavam porque de fato queriam - discurso destinado a elite indiana nacional muito próxima da mentalidade inglesa - e o outro seria da sentença elucidativa da colonialidade "homens brancos salvavam mulheres de cor de homens de cor".
Em nenhum momento ouvia-se as mulheres, logo a resistência das mulheres indianas era revelada pela lei britânica e pela "justiça" dos ingleses.
Para finalizar, expus acima que não concordo totalmente com as acusações de que Spivak neste texto seria fatalista. A proposta que eu vejo é de que o intelectual pós-colonial deve estar atento a geopolítica do poder, que inclusive nos atravessa, e nosso papel é criar espaços/meios para o subalterno falar e ser escutado. Isso nos leva diretamente ao título livro, parafraseando Grada Kilomba, e a necessidade de sua reformulação para "Pode a Subalterna Falar?".
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