sexta-feira, 22 de maio de 2020

O "Posto Ipiranga" e agenda moral do Coiso - apontamentos da reunião ministerial 22/04/2020

Olhando para essa reunião ministerial do dia 22/04 é possível extrair muitos elementos que fundamentam o sistema de crenças do governo federal em seus diversos braços.

Penso,me apoiando na professora Wendy Brown, que o governo Bolsonaro deve ser entendido dentro da ascensão de uma política antidemocrática no ocidente, ou seja, é necessário pensar as particularidades do contexto brasileiro, obviamente, mas deve entendê-lo dentro de uma onda mais ampla da escalada neoliberal.

Wendy Brown escreve sobre e dentro do contexto norte-americano sob governo Trump, porém busca elementos comuns para entender esses governos de extrema direita nas democracias burguesas. Tais elementos parecem ter uma particularidade histórica nessa direita ascendente (nova direita, alt-right e por aí vai), pois conjugam em suas práticas e discursos a demonização do Estado social e do político, favorecimento do capital, repressão ao mundo do trabalho, ataque às igualdades, exaltação da "liberdade", moral "tradicional", populismo antielitista, nacionalismo. São contra a ciência, rejeitam afirmações amparadas em fatos, argumentos racionais. Isso marca uma diferença em relação aos regimes fascistas, autoritários e conservadorismo de outras épocas.

Há um foco em formulações neoliberais de liberdade que legitimam a extrema direita para mobilizar suas exclusões e violências de uma estrutura branca, masculina e cristã, para além da expansão do capital. Se posicionam contra a justiça social pois ela seria tirânica e acabaria com o tecido moral da sociedade.

O mercado e a moral ganham enorme centralidade sendo responsáveis pela provisão e necessidades humanas. Vejam a reforma de previdência que representa a privatização da seguridade social, ideias de que a educação e o cuidado caberia às famílias e não ao Estado,etc. Há uma responsabilização dos indivíduos ou, para esses neoliberais, da família, entendida como átomo fundante do espaço social.

A moralidade tradicional ( e nesse balaio cabe tudo que tem de mais retrógrado no Brasil colonial) é intimamente ligada ao neoliberalismo. Toda política social ou luta por justiça social (contra opressões de gênero, raça, classe, etnia, sexualidade) são vistas como ataques à liberdade e à tradição. Qualquer atuação do Estado no lócus do social significaria ataque à liberdade individual, mesmo para corrigir injustiças históricas. Basta pensar nos ataques do Weintraub aos povos indígenas que em sua fala buscam "privilégios", ao combate do que chamam de ideologia de gênero que buscaria acabar com a família e a uma série de crenças que se inserem nesse rol da branquitude, do masculinismo e de um discurso cristão, cujas crenças compoem grande parte da base bolsonarista.

Mercado e moral são base da liberdade e da ordem. Princípio de mercado se tornam princípios de governo. Aqui cabe uma paralelo à farsa fiscalista e a citações de que a pasta econômica deve agir pela mesma lógica da economia doméstica/de casa. Bom ressaltar aqui também a associação do governo ao gestor/empresário.

Isso é Friedrich Hayek, um dos maiores representantes da escola austríaca do pensamento econômico neoliberal e fundadores da Sociedade Mont Pelerin em 1947. Suas ideias tiveram terreno fértil e foram usadas como laboratório no Chile de Pinochet, o famoso "posto ipiranga" do Bolsonaro. É um projeto político-moral que visa proteger a tradição, negando o social (lembrem-se do discurso da M. Thatcher "Essa coisa de sociedade não existe") e restringindo a atuação da democracia no Estado.

É osso porque precisa ter estômago para ler esses neoliberais com Hayek, Milton Friedman, os ordoliberais, mas ali vão aparecer algumas chaves de compreensão para irracionalidade que é o governo Bolsonaro.

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