FRASER, Nancy; JAEGGI, Rahel. Capitalismo em Debate: Uma Conversa na Teoria Crítica. 1. Ed.,
São Paulo: Boitempo, 2020.
Pretendo fazer uma breve resenha
sobre o instigante livro Capitalismo em
Debate: Uma Conversa na Teoria Crítica de Nancy Frazer e Rahel Jaeggi,
autoras que merecem destaque na Teoria Crítica contemporânea.
Em traços gerais é um livro
complexo, muito sólido em termos teóricos e epistemológicos, propositivo e que
debruça atenção a questões sistêmicas do capitalismo com o devido cuidado com a
história, com os conceitos, atores sociais, assimetrias geopolíticas de poder.
Embora seja um livro produzido por e a partir de referências euro-americanas,
as autoras não deixam de refletir sobre as implicações de suas análises em
contextos pós-coloniais ou da periferia do capital.
O capitalista volta à cena teórica
e do debate público após a crise financeira de 2007. Para elas isso abriu uma
possibilidade de repensá-lo a partir de Teoria Crítica e trazer novas olhares
para economia política.
Embora tenham concepções
diferentes do que é o capitalismo, as duas autoras concordam que a crise não é
apenas econômica no sentido estrito do termo, ou seja, do desemprego, má
distribuição de renda, a problemática é mais profunda, pois trata-se de como a
riqueza é produzida, o que é considerado riqueza, quanto se recebe por
determinados tipos de trabalho, como ela é organizada. Isso nos traz para a
raízes dos problemas de empregos precarizados e/ou mal remunerados, jornadas
triplas, nossa relação predatória com o meio ambiente, relações de cuidados,
enxugamento da democracia pelo mercado (desdemocratização), lobbies, dentre
outros.
Por
que a Teoria Crítica abandonou o capitalismo como objetivo de análise na década
de 80? Para responder a isso, Frazer e Jaeggi lançam uma dupla argumentação:
avanço de concepções liberais e a proeminência do pós-estruturalismo. O
primeiro argumento tem a ver com o abandona de uma crítica estrutural e
fundante do capitalismo, em geral as análises liberais “igualitárias” partem do
capitalismo como dado, como um fato. O segundo argumento tem a ver com
fortalecimento dos pós-estruturalismo, seu rechaço pelo economicismo e seu foco
em questões simbólicas, culturais, aí incluindo debates sobre raça, gênero,
sexualidade. Esse distanciamento feito por autoras/es que podemos classificar
como pós-estruturalista foi importante, pois aqueles debates não como reflexo
da estrutura econômica, mas a partir de suas próprias normatividades e
ontologias. No entanto, uma consequência ruim foi esquecer a importância da
economia política nesta análise.
A
proposta das autoras vem nesse sentido, pensar uma “grande teoria” que abarque
processos históricos, tensões sistêmicas, contradições e tendências a crises
que são multidimensionais (não apenas econômica). Força-se a pensar as
estruturas subjacentes a multidimensionalidade das crises na sociedade
capitalista como um todo.
Conceitualizando o Capitalismo
Este
capítulo gira em torno do debate em caracterizar o que é o capitalismo, quais
os elementos centrais que transformam uma sociedade em capitalista.
Para responder essa indagação as
autoras afirmam que o capitalismo é inerentemente histórico e apresenta, para
além de variedade, regimes em diferentes momentos históricos: mercantilismo,
liberalismo, capitalismo de Estado ou dirigismo estatal e neoliberalismo ou
capitalismo financeiro.
A princípio elas partem das
definições de Marx: propriedade privada dos meios de produção e divisão de
classe entre proprietário e trabalhadores; um mercado de trabalhadores livres;
acumulação de capital, valorizando lucro e não necessidades. Após isso elas
sugerem uma quarta característica que é apresentada na centralidade dos
mercados na provisão da sociedade capitalista. Mercado não é sinônimo de
capitalismo. O que caracterizaria os mercados na sociedade capitalista seria a
comodificação, que é, de forma simplificada, tornar bens, serviços, insumos em
mercadoria, além dos próprios meios de subsistência e assuntos humanos
fundamentais.
É possível distinguir mercados em
três usos: distribuição, alocação e formativo. Os distributivos gerem bem
tangíveis para consumo pessoal; os alocativos direcionam os recursos para
interesse coletivos e transindividuais, mas frisa-se que o capitalismo usa o
produto social e coletivo para riqueza individual; os formativos que estruturam
a dinâmica das nossas relações sociais, instrumentaliza as nossas relações pois
a troca de mercadoria penetra profundamente no tecido social. No capitalismo a
questão central é da alocação de insumos (incluindo trabalho humano) e
excedente.
As autoras até aqui refutaram a
tese de que o capitalismo se resume ao sistema econômico e de que este é
autônomo em relação ao resto do social. A partir disso elas começam um
movimento de desortodoxar essa teoria, trazendo novas epistemologias para
pensar a processo de acumulação de capital socio-historicamente, indo para além
de Marx.
Uma dessas novas epistemologia é o
trabalho reprodutivo, conceituado por feministas marxistas e socialistas. Essa
noção toca em temas trabalho reprodutivo não remunerado, em sua maior parte,
esfera do cuidado, do prover, afeto, mas também corre em vizinhanças,
associações de bairro e hoje esta também em espaços mercantilizáveis. Essa
atividade é fundamental para a existência do trabalho assalariado e à
acumulação. O trabalhador assalariado pode ser explorado na existência do
trabalho domestico, pois mantem as gerações futuras e os vínculos sociais, logo
é um plano de fundo do capital. Frazer e Jaeggi argumentam que o deslocamento
da produção a reprodução social é um artefato histórico do capital e que as
sociedades capitalistas têm uma tendência a crise econômica e socioreprodutiva.
A segunda mudança epistêmica é
aquele pensamento que traz a ideia do uso indiscriminado da natureza. Natureza
é incorporada ao capital como uma fornecedora inesgotável de insumos garantido
a reprodução capitalista. Aqui a natureza é entendida em oposição à humanidade,
na qual a primeira seria a-histórica, dada objetivamente e material, enquanto a
segunda é histórica, sociocultural. Após séculos de usurpação a natureza grita
como um foco de crise capitalista, olhemos, por exemplo, para comodificação da
agua.
Outra episteme é da economia à
politica. O velho e grande debate liberal em todos seus matizes. As autoras
rechaçam a ideia de economia como esfera autônoma e autoregulada, como vimos,
porque a economia depende de um aparato estatal jurídico para sua permanência.
Direitos a propriedade, contratos, sustentação de empresas privadas, a troca,
criação e manutenção de moeda, tudo isso depende de um poder politico. Um
elemento central aqui é o direito internacional, que opera para além das
fronteiras dos Estados Nacionais, acordado com grandes potencias e organismos
supranacionais para circulação de capital. Nesta geopolítica temos outras
divisões estabelecidas pelo imperialismo em sua gramática centro e periferia.
Assim o Estado constitui a economia
capitalista. O capitalismo estabeleceu essa separação, que inexistia no
feudalismo, e a implicação é que cada poder tem sua esfera, seu modo de operar,
embora sejam inter-relacionados.
Como apontado, surge uma outra
divisão que é a centro-periferia. Essa divisão nos leva a temas estruturantes
da sociedade capitalista, como o de raça. Fazendo um paralelo à dominação de
gênero e ao heteropatriarcado que tem base na separação entre produção e
reprodução social, a raça tem base no que as autoras chamam de exploração e
expropriação. Enquanto a exploração pressupõe um trabalhador “livre” e
“consenso contratual”, a expropriação é a acumulação por outros meios, ela
dispensa essas características.
O argumento de Frazer e Jaeggi é
que não pode haver exploração sem expropriação, que as duas “ex” mudam status
dos sujeitos, posto que os explorados são sujeitos de direitos, cidadão e os
expropriados são não livres, sem proteção política e jurídica e essa distinção
de status está atrelada a populações racializadas. Esta distinção é rascunhada
politica e economicamente pelos Estados, na qual com a exploração os custos de
reprodução do trabalhador são pagos ao passo que na expropriação não, o que
coloca os expropriados como fundamentais para acumulação de capital. Olhemos
para o Brasil escravista e o status conferido a população escravizada nas
plantações de café e açúcar.
As autoras avançam mais na tese
afirmando que a expropriação é pré-condição e condição contínua sine qua non para o axioma de acumular
mais e mais. A conclusão é de que a opressão racial é sistêmica e estruturante
dos regimes capitalistas.
Neste momento as suscitam um
debate acerca do que chama de primeiro plano e plano de fundo do capitalismo,
com o intuito de relativizar a forma mercadoria e dizer que ela não é
onipresente, pois o capitalismo necessita de esferas não mercantilizáveis, como
dito anteriormente. As esferas do social, ecológica e política tem gramáticas
normativas e ontológicas próprias. Por exemplo, algumas práticas de reprodução
fortalecem ideias de solidariedade e na esfera da natureza não humana
princípios de não dominação na natureza, auto sustentabilidade. Aí há uma divergência entre primeiro plano e
plano de fundo, posto que o primeiro plano opera na lógica de eficiência,
crescimento, mérito, escolha individual.
Cabe sublinhar que a dinâmica de
relações entre os planos não é intransponível e também não são
“incontamináveis”, posto que não são duas lógicas diferentes, de instituições
contrastantes. A proposta é pensar que as sociedades capitalistas
institucionalizam diversas ordem normativas e ontologias, aí Frazer recupera
sua concepção de capitalismo: como uma ordem social institucionalizada e
aponta, novamente, para as divisões institucionais e regimes de acumulação que
ela vê: produção econômica e reprodução social; separação institucional entre
econômica e política; divisão entre mundo humano e mundo natural; exploração e
expropriação. Aqui Jaeggi tem outra perspectiva, ela concebe o capitalismo como
um contexto de práticas sociais e dentro de práticas sociais, isto é, práticas
sociais relacionadas com outras instituições e práticas sociais econômicas e
não econômicas, concebidas como práticas agregadas.

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