sexta-feira, 22 de maio de 2020

O "Posto Ipiranga" e agenda moral do Coiso - apontamentos da reunião ministerial 22/04/2020

Olhando para essa reunião ministerial do dia 22/04 é possível extrair muitos elementos que fundamentam o sistema de crenças do governo federal em seus diversos braços.

Penso,me apoiando na professora Wendy Brown, que o governo Bolsonaro deve ser entendido dentro da ascensão de uma política antidemocrática no ocidente, ou seja, é necessário pensar as particularidades do contexto brasileiro, obviamente, mas deve entendê-lo dentro de uma onda mais ampla da escalada neoliberal.

Wendy Brown escreve sobre e dentro do contexto norte-americano sob governo Trump, porém busca elementos comuns para entender esses governos de extrema direita nas democracias burguesas. Tais elementos parecem ter uma particularidade histórica nessa direita ascendente (nova direita, alt-right e por aí vai), pois conjugam em suas práticas e discursos a demonização do Estado social e do político, favorecimento do capital, repressão ao mundo do trabalho, ataque às igualdades, exaltação da "liberdade", moral "tradicional", populismo antielitista, nacionalismo. São contra a ciência, rejeitam afirmações amparadas em fatos, argumentos racionais. Isso marca uma diferença em relação aos regimes fascistas, autoritários e conservadorismo de outras épocas.

Há um foco em formulações neoliberais de liberdade que legitimam a extrema direita para mobilizar suas exclusões e violências de uma estrutura branca, masculina e cristã, para além da expansão do capital. Se posicionam contra a justiça social pois ela seria tirânica e acabaria com o tecido moral da sociedade.

O mercado e a moral ganham enorme centralidade sendo responsáveis pela provisão e necessidades humanas. Vejam a reforma de previdência que representa a privatização da seguridade social, ideias de que a educação e o cuidado caberia às famílias e não ao Estado,etc. Há uma responsabilização dos indivíduos ou, para esses neoliberais, da família, entendida como átomo fundante do espaço social.

A moralidade tradicional ( e nesse balaio cabe tudo que tem de mais retrógrado no Brasil colonial) é intimamente ligada ao neoliberalismo. Toda política social ou luta por justiça social (contra opressões de gênero, raça, classe, etnia, sexualidade) são vistas como ataques à liberdade e à tradição. Qualquer atuação do Estado no lócus do social significaria ataque à liberdade individual, mesmo para corrigir injustiças históricas. Basta pensar nos ataques do Weintraub aos povos indígenas que em sua fala buscam "privilégios", ao combate do que chamam de ideologia de gênero que buscaria acabar com a família e a uma série de crenças que se inserem nesse rol da branquitude, do masculinismo e de um discurso cristão, cujas crenças compoem grande parte da base bolsonarista.

Mercado e moral são base da liberdade e da ordem. Princípio de mercado se tornam princípios de governo. Aqui cabe uma paralelo à farsa fiscalista e a citações de que a pasta econômica deve agir pela mesma lógica da economia doméstica/de casa. Bom ressaltar aqui também a associação do governo ao gestor/empresário.

Isso é Friedrich Hayek, um dos maiores representantes da escola austríaca do pensamento econômico neoliberal e fundadores da Sociedade Mont Pelerin em 1947. Suas ideias tiveram terreno fértil e foram usadas como laboratório no Chile de Pinochet, o famoso "posto ipiranga" do Bolsonaro. É um projeto político-moral que visa proteger a tradição, negando o social (lembrem-se do discurso da M. Thatcher "Essa coisa de sociedade não existe") e restringindo a atuação da democracia no Estado.

É osso porque precisa ter estômago para ler esses neoliberais com Hayek, Milton Friedman, os ordoliberais, mas ali vão aparecer algumas chaves de compreensão para irracionalidade que é o governo Bolsonaro.

sábado, 16 de maio de 2020

Big Brother Bolsonaro

Ontem, dia 15/05/2020, fomos surpreendidos, mas nem tanto, pela saída do empresário zumbi - Teich - do Ministério da Saúde. 
Analisar e acompanhar o governo do Coiso não é tarefa fácil, muitas vezes a racionalidade não dá as caras, e ficamos num malabarismo de tentar analisar conjuntura e intenções. Cientista social devia receber adicional de insalubridade...

Nem ele aguentou os piti do Coiso, ele fez um discurso apressado, em cima do muro, nada carismático. O que já se esperava desse ministro, olhando pra esse quase um mês a frente da Saúde e a sua não comunicação com a população em geral sobre dados do covid-19.

Aparentemente rolaram várias divergência, algo inaceitável pro Bolsonaro pois seu rebanho (equipe) não é escolhida para pensar mas sim pra rosnar as mesmas palavras e ideias que vem de seu pastor. Essa semana Teich foi constrangido publicamente numa coletiva na qual foi informado que Bozo havia autorizado salões de beleza e academia como atividades essenciais. 

Entrou temporariamente o general Eduardo Pazuello, 02 das pasta da Saúde, especialista em tarefas administrativas e logísticas. Mais um milico que não domina os instrumentos de trabalho da Saúde pra fazer uma gestão tão importante no momento.

Além do isolamento, a cloroquina também é um dos motivos de divergências. Teich fala que é necessário olhar com cuidado pra o medicamento, pois há efeitos colaterais, se faz necessário acompanhamento médico, etc.  Bozo já defende o uso indiscriminado, dizendo que apresenta ótimos resultados (muitas pesquisas científicas indicam contrário), reproduzindo a letra o discurso de seu dono - Trump. Teich pulou fora pra manter a sua carreira, governo Bolsonaro uma hora acaba, a carreira de médico oncologista permanece. 

No meio da pandemia, com número de mortes diárias acima de 800, o grande aliado da pandemia é o governo Bolsonaro. 

Mais de 70 mil militares receberam auxílio emergencial  de 600 reais indevidamente. 70 mil! E Bolsonaro fala em suas lives que foram apenas alguns, enquanto isso o povo se aglomera nas filas da caixa.

Guedes continua defendendo a agenda fiscalista o de teto dos gastos desprezando totalmente a realidade brasileira. 

Sobre as denúncias do ex ministro Moro, a base de apoio bolsonarista foi cindida: de um lado lavajatistas e de outro os que apoiam incondicionalmente o Bolsonaro.
Pra esquivar de um possível impeachment Bolsonaro já comprou parte do centrão nessa empreitada, buscando isolar Rodrigo Maia.

Enquanto isso, a agenda de Bolsonaro segue na "normalidade", como se nada tivesse ocorrendo. Weintraub, desministro da educação, prepara o Enem mais excludente já visto, dizendo que o exame não serve pra corrigir desigualdades e que os melhores passarão.

Quem é o próximo no paredão do Big Brother Bozo? Sem querer hierarquizar desgraça, mas se o Guedes caísse e a farsa fiscalista já ajudaria, mas como se ouve por aí, se o Guedes sair do barco ele não tem outro para entrar.


sábado, 9 de maio de 2020

Escritos Contra Marx (1875) de Mikhail Bakunin


Nesta resenha pretendo fazer uma sucinta apresentação do texto “Escrito Contra Marx” que é um fragmento que compõe a continuação do Império Cnuto-germânica de Mikhail Bakunin.  
Bakunin vai dedicar este livro ao debate travado no seio da AIT entre socialistas antiautoritários e socialismo autoritário, personificado na figura de Marx, trazendo a grande polêmica em torno da obrigatoriedade do programa de conquista do poder política estabelecido na AIT no Congresso de Haia. Além de ser um texto que suscita esse debate importantíssimo e que tem implicação na política contemporânea entre marxistas e anarquistas, Bakunin faz uma análise “psicológica”, assim digamos, do personalismo em torno de Marx e uma defesa da ala de socialistas antiautoritários na AIT.
Bakunin inicia o texto falando o porquê da criação da AIT e seu objetivo que são respectivamente: a exploração burguesa é solidária internacionalmente, logo a organização dos trabalhadores contra essa exploração também deve ser; a AIT é uma associação de internacional que luta pela emancipação econômica dos trabalhadores e essa emancipação só pode ser obra deles próprios.
Ele aponta isso para fazer a crítica a Marx na sua imposição de um programa político de conquista do Estado, via eleições burguesas, como obrigatório na AIT, algo que está intimamente ligado a autopromoção da figura do Marx. A grandeza e amplitude de militantes na AIT reside no fato de a emancipação econômica ser a unidade que abarca trabalhadores de todo o mundo, a obrigatoriedade do programa política é cindir isso, da mesma forma que seria estabelecer uma obrigatoriedade religiosa.
Marx e Engels colocam a conquista do poder político como o primeiro dever dos trabalhadores, segundo circular de 1864. Marx, nesse sentido, estimula a formação do partido social democrata Alemão, pois compartilham desse entendimento.
O Congresso de Genebra (1866) rechaça qualquer obrigatoriedade de princípios políticos e/ou ideológicos. O mesmo acontece no Congresso de Lausanne em 1867 e de Bruxelas em 1968. Três anos consecutivos de perda de proposta. Em 1869 as condições pareciam favoráveis a Marx no Congresso de Basiléia, pois havia se organizado com a seções da Suíça Alemã, Zurique e Basiléia e os delegados da Alemanha estavam em peso. Perderam novamente.
Em 1871 no Congresso de Londres Marx já havia arquitetado tudo com antecedência, pois era do Conselho Geral, e aprovou-se a questão política e a conquista do poder pelo proletário. No Congresso de Haia em 1872 que a manobra de Marx foi concretizada.
Bakunin diz que nenhum programa político uniforme poderia dar conta de contemplar os proletários da Europa à América em condições de desenvolvimento econômico, temperamento, e de cultura tão diferentes. Se acreditarmos que o programa política deve entrar na AIT ele deve ser apenas um, pois de outra forma haveria tantas várias Internacionais dentro da Associação. Para ser uno tem de vir de cima para baixo, foi o que ocorreu no Congresso de Haia. Aí coloca-se o dilema: Ou unidade com escravidão; ou liberdade com divisão e dissolução.
Qual saída? A saída disso seria voltar aos estatutos primeiros e dissolver a obrigatoriedade política, deixando na responsabilidade de cada seção seguir a direção que quiser, pois aí a unidade política surgirá, não da cabeça de um douto, do socialismo científico, de uma mente ambiciosa, mas da ação livre dos trabalhadores de todos países.
Um programa político só faz sentido se sai das generalidades e determina bem as instituições que pretende instituir no lugar das que vai derrubar. O programa do Marx é centralizador, composto por um governo muito forte, gerida por uma camada de proletário semi burgueses, mais civilizada sobre a maioria de lumpemproletariado (camadas mais pauperizadas – na qual Bakunin aposta ser protagonista da Revolução Social).
As massas desejam a emancipação econômica, porque é aí que reside a liberdade para elas, além da unidade da exploração e das dores cotidianas. As massas se uniram na AIT porque compartilhavam a miséria, a exploração, o sofrimento sobre o julgo do capital e da propriedade privada e aí cabia uma luta solidária.
Mas por que o programa de Marx? Porque Marx tentou personificar a AIT em sua figura, como representativa legítima e fidedigno da Associação.
A Aliança, seção da AIT, da qual Bakunin faz parte, junto com outras seções (suíça, espanhola, italiana, francesa) defendem a abolição desse programa político.
Seria proibido ocupar-se de questões políticas e filosóficas na AIT? Nada disso, impossível. Ela não deve ser imposta como obrigatória, deve vir da discussão vida dos trabalhadores e do mundo do trabalho. Isso se daria dentro da própria AIT – política negativa – pela unidade da emancipação econômica que comporta um argumento de dois níveis: a) proletário entra na Associação destruindo fronteira políticas dos Estado, patriotismo e b) acentua a separação trabalhador e burguesia, pois se coloca fora do jogo da política burguesa e se coloca contra ela. AIT colocada fora do mundo burguês estabelece a solidariedade internacional entre trabalhadores.
Todas questões políticas e filosóficos teriam como ponto de partida a reivindicação econômica, caso das caixas de resistência e solidariedade das greves, pela federação internacional dos corpos de profissão e pelo desenvolvimento espontâneo das ideias filosóficas.
Bakunin vai discorrer sobre as caixas de resistência que tem como objetivo criar fundos necessário para as greves, tornando-as possíveis. As greves têm importância em dois aspectos: despertam antagonismo de classe, fortalecem, agitam as massas e criam a solidariedade entre trabalhadores. O autor vai mostrar porque os radicais e socialistas burgueses são contra as greves, pois, defendem a conciliação de classe e um Estado unitário, republicano e democrático. Para isso é preciso derrubar o que já existe, levantando entre as massas ideias de patriotismo com o intuito de instrumentalizá-los. Essa ação é feita com a burguesia.
O socialista antiautoritário aqui traça um paralelo entre Mazzini e Marx, com ênfase na ideia de Marx de que talvez na Holanda a questão social possa ser resolvida de forma amigável, legal e sem luta e que a emancipação só pode ser feita via Estado centralizador, com governo muito forte. Bakunin brinca afirmando que Mazzini crê em Deus e Marx crê em si mesmo.
 Após isso, o autor faz um elogio da liberdade, enquanto direito político, na Inglaterra e EUA, coisa que achei no mínimo curiosa. Busca explicações disso no temperamento e hábitos sociais desses povos, afirmando que apenas estes têm consciência política.
O socialista antiautoritário se pergunta, como esperar essa consciência de um povo? Pela propaganda? Não. A consciência é fruto do desenvolvimento espontâneo das condições de vida. Pode-se estimular a consciência que já tem e que não está latente, mas não dar o que não possuem. Nas massas o que pode constituir essa consciência é a revolta, a qual é instinto da vida.
Então a consciência política é diferente para classes privilegiadas e massas. As massas têm a consciência na revolta contra o Estado, porque estas são esmagas, humilhadas, transformadas em rebanhos.
Aqui os Marxistas vão dizer que o Estado não é responsável por essa condição, mas é uma condição inevitável do desenvolvimento econômico, que para eles do ponto de visto histórico é um avanço, pois o Estado militar e burocrático é um acompanhamento obrigatório da revolução – condição sine qua non.
Nós reconhecemos, diz Bakunin,  a lógica dos eventos, mas não os louvamos, pois defendemos o triunfo da liberdade e o pleno desenvolvimento material, intelectual e moral pela organização livre e espontânea e da livre solidariedade econômica e social.
Essa crítica de Bakunin toca um assunto polêmico que é a possível teleologia em Marx. O militante antiautoritário aqui traz alguns exemplos históricos dessas concatenação de fatos históricos consolidados e sua defesa de denunciá-los. Ele cita condições sociais e políticas de alguns lugares: Grécia/roma, cristão/pagão, Renascença/ Império Italiano, analisa a França no conflito entre protestantes e católicos, cuja a vitória dos católicos foi vista por alguns políticos e historiadores fatalistas como avanço para a revolução, pois o catolicismo era o Estado, democracia, e o protestantismo representava a revolta da aristocracia contra o Estado,democracia (aqui se aproxima de Hegel: protestantismo religião da razão). Esse é um sofisma idêntico aos marxistas ao considerar tiranos como possíveis emancipadores.
Bakunin, em acordo com o Sr. Veuilot – intelectual defensor católico -  diz que é mais verdadeiro considerar a semelhança entre a noite de São Bartolomeu e o massacre dos communards, posto que o protestantismo, não como teologia calvinista, representava revolta, liberdade, humanidade, enquanto o catolicismo era ordem da Igreja e Estado, escravidão sem limite e fim. Bakunin diz que era um fato consumado inevitável, mas não deixa de dizer que foi infelicidade para humanidade.
Bakunin diz que esses patriotas não percebem que um povo que suporta a todo custo a tirania se acostuma a ela e perde instinto de revolta. Conforme debatemos no último encontro parece haver em Bakunin um instinto imanente a revolta, mas nesse texto ele vai explicitar que a compreensão dele de instinto tem a ver com condicionamentos histórico-sociais, como veremos mais a frente.  Aí ele cita que a queda do protestantismo na França fez com que o povo perdesse o que ele chama de consciência política. Isso após os grandes dias revolucionários (creio eu que esteja falando da Comuna de Paris).
Aqui entra a questão da partilha da Polônia. Marx aqui denuncia como crime e Bakunin está de acordo. O que Bakunin se pergunta é porque Marx avalia a partilha da Polônia sob o seu olhar humanista e não pelo fatalismo histórico? Porque Marx é um ardente patriota e assim como Bismark deseja um Estado pangermânico, porém por vias diferentes. Essa concretização encontro 3 obstáculos: a) rivalidade dos dois maiores Estados Germânicos: Áustria e Prússia; b) inveja da França; c) Ameaça do Império da Rússia que se coloca como protetor dos povos eslavos contra Alemanha.
Os dois primeiros obstáculos foram de certa maneira resolvidos pela Bismark. Áustria, que não soube germanizar os eslavos em seu domínio, saiu como perdedora no conflito com exército da Prússia. Sobre a França, Bismark e Marx sabem que antes de iniciar um conflito entre Pangermanismo e o pan-eslavismo sob a figura do Czar é necessário para acabar com a França. (por uma aliança tática).
França encontra-se enfraquecida, mas não derrotado e não esqueceu as baixas que levou da Alemanha. Ela buscará revanche seja por conflito entre Estados ou por Revolução Social que derrubará tanto Estado Francês quanto Alemão. Bismark está ciente disso e por isso mantem aliança com Czar.
Bismark é um político muito esperto e sabe que na política não há amizade, assim ele vai mantendo a proximidade com o Czar, até o momento de liquidar o Império Russo.
Marx é sucessor da política de Bismark, pois seu confidente, Engels, escreveu para Bismark saudando-o pela causa que faz a revolução social.
O que os separa é a forma e condições do governo. A distinção de Bismark e Marx é que o primeiro é aristocrata e monarquista enquanto o segundo é democrata, socialista autoritário e republicano.
O que os une? Culto ao Estado. O Estado é condição necessária para prosperidade de um e emancipação do outro.  Bismark evidentemente é homem de Estado. Marx também, tanto que quis instaurar um governo na AIT, no estatuto de seu partido Alemã está nítida a necessidade de um grande Estado Popular.
Quem fala em Estado quer dizer Estado particular, limitado, e não universal. Marx governará um Estado e existirão outros. Isso inevitavelmente significa inveja, guerra, concorrência, porque é da natureza do Estado romper solidariedade humana. Isso é ruptura com a moral e razão humana universais, pois há uma moral e razão de Estado que é o patriotismo.
Para conservar o Estado precisa de força externa e internamente. Deve cuidar do pensamento e atos de seus súditos para que não surjam inimigos internos. Até a existências das forças armadas será necessário controle da educação, censura, instrução, polícia, correntes de opinião (meio de comunicação fazendo um paralelo). É impossível um governo atender as vontades universais – a vontade do povo - , a menos que seja dotada de onisciência, onipresença e onipotência, brinca Bakunin. Sempre haverá descontes porque haverá sacrificados.
Essa abstração de representar a vontade do povo sempre existiu, na igreja chama-se Clero e no Estado é a classe dominante.
Marx afirma que em seu Estado não haverá nenhuma classe. Bakunin diz que prometem isso, mas haverá um governo, que vai administrar as massas politicamente e fazer gestão econômica (concentrando produção, repartição de riquezas, terra, desenvolvimento das fábricas, comércio e por ai vai). Será um governo da inteligência científica, o mais aristocrático e despótico. Haverá uma minoria dominando em nome da Ciência por cabeças transbordantes de cérebro e uma imensa maioria dominada.
Como Marx lida com a contradição de seu pangermanismo e sua luta pela emancipação dos trabalhadores de todo o mundo? Convencer e persuadir a sai mesmo e outros de que a emancipação do Estado Alemão é a condição máxima de emancipação de todo mundo.
Bakunin diz que essa ideia não é nova e se remete a concepções da criação de uma grande pátria alemã fundada sob dominação dos eslavos que habitam a Prússia.
O autor volta a pensar a cultura alemã e diz que unicamente aí o protestantismo foi religião do despotismo, pois a obediência e resignação são virtudes de súditos e estão no povo alemão.  No império Cnuto-Germânico Bakunin vai mostrar com a nação alemã estava na total escravidão e obscurantismo ao longo da idade média. Embora tenham acontecidos levantes camponeses, durante reprimidos e condenados.
Marxistas e burgueses radicais dizem que essas revoltas camponeses representavam a reação e que era preciso reprimi-las. Camponês só faz reação, revolução como tal é civilizada, científica. Os camponeses foram derrotados pelos nobres. Ai que se desenvolve o fortalecimento do Estado militar e burocrático como pretensamente progressista e revolucionário.
Os camponeses esmagados, dizimados, na miséria e sob o dogma cristão não se insurgem mais. Alemanha se tornou assim paraíso dos tiranos, da submissão, por 3 séculos. Caída numa mediocridade intelectual e material, os consolos vinham da religião cristã. Isso marcou passagem da idade média a era moderna na Alemanha.  
Bakunin resume esse período do feudalismo a essa nova força do capital nas palavras: empobrecimento, mal-estar material, fraqueza intelectual e moral. Alguns escritores, patriotas, atribuem isso a guerra de 30 anos (1618-1648 – série de guerras de diversas nações europeias motivas por razões territoriais, comerciais, religiosas), na qual Alemanha foi duramente atingida.  Mas, Bakunin pergunta, qual outro país não passou por coisas semelhantes? Da morte de Lutero (1546) até primeiros escritos de Lessing (1750) houve uma interrupção do pensamento intelectual e vida moral.
A teologia luterana dominava, o direito pregava poder absoluto do soberano, era uma pátria de tiranos, composta por lacaios. Além da teologia e do direito, havia a ciência a serviço do Estado (diplomacia, administração, finanças), embora não houvesse exatamente um Estado Alemão, mas sim infinidades de Estados, com Áustria na frente.
Bakunin diz que a burocracia surge e se fortalece na Alemanha, inclusive é onde se tornou ciência e arte. A diplomacia, embora tenha surgido na Itália, também ganha terreno fértil na Alemanha.
                Bakunin volta a pensar Estado e se apoia em Maquiavel – Estado só existe pela violência e não é outra coisa que violência sistemática impostas as massas. Estado é colocado como objetivo supremo, na qual todo humano deve se sacrificar e os crimes cometido no interesse do Estado se tornam virtudes.
                Conclusão de Bakunin é que nenhum povo, diante de quadro de século, pode ficar indiferente aos condicionamentos. Por isso a unificação alemã só poderia ser realizada via Estado e não pela mobilização popular. A unificação apenas viria da absorção violenta de um Estado Forte, pois só uma pequena fração da burguesia radical vai para luta. Para fundar um grande Estado, unitário, as massas precisariam primeiro destruir os pequenos Estados.



segunda-feira, 4 de maio de 2020

Resenha crítica "Pode o Subalterno Falar?" de Gayatri Spivak

Bom dia,boa tarde,boa noite!

Como estamos nessa quarentena? É muito zika desse desgoverno, mas podepá que tá pirigando cair.

Então, hoje vou fazer uma resenha crítica do famoso, ou nem tanto, livro "Pode o Subalterno falar?" da professora Gayatri Spivak. 

O livro é um das referências dos estudos pós-coloniais e foi publicado em 1985 no período Wedge com o subtítulo "Especulação sobre o suicídio das viúvas". É um texto bem sui generis porque mescla um marxismo heterodoxo com teorias culturais. 

A princípio gostaria de compartilhar minhas impressões sobre a obra. Trata-se de um livro de grande rigor teórico e epistemológico, que estabelece a ruptura com a tese do "Outro" enquanto objeto de conhecimento. A solidez argumentativa de Spivak te mantém refém ao texto, assim com sua reflexão sobre os dados empíricos indianos, em particular a autoimolação das viúvas. 

Muitos cientistas sociais acusam a autora de fatalismo. Concordo em partes com essa acusação, pois há alguns apontamentos de saídas para se "produzir" o sujeito subalterno. Apontamentos tênues, complexos, às vezes evasivos, mas há. Enquanto intelectuais temos que assumir que não é um trabalho fácil.
O papel do intelectual, cujo o assunto abordarei mais a frente, é visto como um campo imbrincado numa tensa relação entre colonialidade e agenciamento. Aqui, para verem como não sou sectário, me aproximo da concepção de Gramsci de "Intelectual orgânico". Embora não esteja alinhado a essa concepção, gosto de ampliá-la e tensioná-la. O papel do intelectual, aí incluindo nós cientistas sociais, não é tirar linha política descolado de um contexto orgânico e/ou em seu "gabinente", mas compor, atuar e estar junto, pensando a relação entre teoria e prática. Mas,entretanto, contudo aqui entramos em outro debate, peço licença pela pequena digressão. 

Retomando.

Spivak vai destinar este livro aos intelectuais pós-coloniais, principalmente aos pós-estruturalistas franceses e pensar o lugar das mulheres no regime colonialista e patriarcal (aqui uso um termo não utilizado pela autora, mas não consigo elaborar um melhor agora).

No que diz respeito ao primeiro grupo, a teórica vai se debruçar na obra de Foucault e Deleuze "Os intelectuais e o poder" de 1972 para fazer uma crítica que abrange os estudos pós-coloniais em geral.
Spivak diz que a defesa do subalterno pelos intelectuais amiúde tem como plano de fundo a cumplicidade em relação aos interesses do Ocidente - o que ela chama de Ocidente como sujeito. 

Destrinchando esse texto, os pós-estruturalistas franceses veem uma relação continuísta entre poder/desejo/interesse e afirmam que o papel do intelectual é "revelar" e conhecer o Outro. Eles trazem a figura de um Maoísta e da luta dos trabalhadores - como o Outro - e ambos são caracterizados como monolíticos, na qual a luta estaria vinculada ao desejo.
Nessas formulações eles desconsideram o papel da ideologia e a divisão geopolítica, posto que interesse e desejo seriam indiferenciados, interesse se realiza no desejo e desejo se realiza no interesse. A experiência concreta do Outro é a realidade, então caberia ao intelectual pós-colonial "revelá-la", solidificando essa divisão internacional do trabalho. 

Marx no 18 Do Brumário detalhou que interesse e desejo são distintos mas coabitam o mesmo espaço. Exemplo, interesse de classe seria coletivo, impessoal, sistemático ao passo que o desejo não o é. 

Isso toca diretamente a não compreensão das duas dimensões do termo representação por parte dos autores franceses, as quais são: a) dimensão política de falar por, espécie de delegação, procuração b) dimensão artística ou filosófica de re-apresentação, encenar, espécie de retrato, imagem.

Foucault e Deleuze recusam a estrutura de signo e significante do termo representar, impedindo o aparecimento de teoria da ideologia. Os intelectuais seriam transparentes, eles apenas deixariam a fala, ação e conhecimento dos subalternos se tornar visível. O problema dessa construção para Spivak é que ela é essencialista e utópica. 

O processo de falar é dialógico, pressupõem um falante e um ouvinte. O subalterno não pode falar, e se por acaso vier a falar ele não pode ser ouvido. Esse processo dialógico não se concretiza para o subalterno. A fala do subalterno sempre é mediada por alguém que a reivindica por ele. 

Adentrando especificamente no caso da mulher indiana a situação se agrava, pois há o peso do colonialismo e do patriarcado (lembra a observação que fiz). A mulher indiana é duplamente obliterada pela codificação britânia da lei hindu e sua violência epistêmica.

Olhemos para as insurgências coloniais e o lugar da mulher nesse contexto colonial. O sati, isto é, a autoimolação da mulher indiana na pira funerária do marido, foi proibido pela lei Britânica em 1829 através do enrijecimento escrito e atropelamento colonial da lei hindu. 

Aqui o ponto não é avaliar se é moralmente aceita a prática ou não, seguramente não o é. O ponto é entender ordens institucionais em jogo para as explicações do agenciamento ou não das mulheres indianas. Em traços gerais havia duas explicações: da coragem das mulheres que se matavam porque de fato queriam - discurso destinado a elite indiana nacional muito próxima da mentalidade inglesa - e o outro seria da sentença elucidativa da colonialidade "homens brancos salvavam mulheres de cor de homens de cor". 

Em nenhum momento ouvia-se as mulheres, logo a resistência das mulheres indianas era revelada pela lei britânica e pela "justiça" dos ingleses. 

Para finalizar, expus acima que não concordo totalmente com as acusações de que Spivak neste texto seria fatalista. A proposta que eu vejo é de que o intelectual pós-colonial deve estar atento a geopolítica do poder, que inclusive nos atravessa, e nosso papel é criar espaços/meios para o subalterno falar e ser escutado. Isso nos leva diretamente ao título livro, parafraseando Grada Kilomba, e a necessidade de sua reformulação para "Pode a Subalterna Falar?".